Pobre e negro como a maior porcentagem da nação, Lázaro sai todos os dias pra trabalhar. Pega filas imensas para ter oportunidade de ficar em frente à porta do ônibus, mas perde uns três por não conseguir subir de tão cheio…
Quando ele percebe que está começando a se atrasar, pega o próximo mesmo sem caber. O mesmo acontece no metrô e nos próximos 2 ônibus que pegará antes de chegar ao seu trabalho.
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Já no trabalho, passa o dia inteiro em rotinas massantes, lidando com pessoas com má vontade, funcionários insatisfeitos e sem esperança, sem qualquer aumento há tempos já que a empresa está com dificuldades de sobrevivência e já não paga seus credores há muito, mantendo somente o pagamento de seus impostos ao governo pois fecharia as portas se não pagasse.
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No final do caminho de volta pra casa, depois de passar por dificuldades maiores ainda no percurso, ele encontra um bandido. Estudaram juntos no primário, mas o bandido abandonou a escola logo cedo, nem se lembra de Lázaro…
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Perdeu playboy… Me dá o tênis e o celular!
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Sem qualquer meio de defesa ele entrega. Ao sair o bandido lhe dá várias coronhadas e, ainda, um tiro.
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Descalço e sem celular, Lázaro enfrentará outras filas, má vontade e outros funcionários insatisfeitos, agora no hospital público.
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E o bandido? Voltou pra casa seguro, com uma arma que o protegia, com tênis e celular novo.
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Ao desmaiar de exaustão, Lázaro se vê em um sonho, onde está em um lugar totalmente hostil, com medo e muita dor, mas ao olhar para cima consegue ver o bandido em um lugar feliz, e sem qualquer preocupação. Lázaro grita e pede ajuda mas o bandido não o ouve; “há um abismo que os separa”.
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Quando Lázaro acorda após dois dias por causa das cirurgias, vê no noticiário que o bandido foi morto em um confronto com a polícia. Entidades de Diretos humanos, partidos de esquerda e ONGs estão consolando a mãe do bandido, lutando pela punição dos policiais e tentando suprir as necessidades de sua família, já que ele, sim, o bandido, era arrimo de sua família.
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Lázaro nem conseguiu avisar sua família, eles quase sem esperança o procuram desde que se deram conta de seu desaparecimento.
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Agora, com dificuldades nos movimentos, recebendo um terço de seu salário pela “caixa”, Lázaro, também arrimo de sua família, não recebe nenhuma visita sequer, já que não é considerado uma vítima da sociedade.
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Autor: Jonathan Slohan (jonathanslohan@gmail.com)
Jonathan, talvez por falta de informação, o herói deu entrada no INSS de forma errada. Por estar voltando do trabalho, isso se caracteriza acidente de trabalho e garante alguns direitos que o auxilio doença não tem, como o salário integral.