Texto: Sergio de Souza
Pode-se pensar que as redes sociais são as campeãs dos erros de Português, mas elas ainda não conseguem superar as redes de TV. Primeiramente, porque a maioria das pessoas, apesar de todas as narrativas a respeito da “Educação, hoje, ser inclusiva” não tem acesso ao aprendizado profundo da norma culta e, além disso, a sua forma de falar tem algo de poético e bonito, ou seja, escutar um homem do campo falar “probrema” não fere os ouvidos de praticamente ninguém, por mais que se preze pela norma culta.
Então, os erros dos usuários das redes sociais em termos de fala ou escrita são consequência de uma “Educação” cujo modelo nos leva a estar sempre nos últimos lugares das avaliações globais sobre qualidade da Educação (na verdade, do Ensino). Essas mesmas pessoas que erram, na fala e na escrita, nas redes sociais são, em parte influenciadas por profissionais que vivem da palavra e, por isso, deveriam prezar pela qualidade em sua fala e em sua escrita.
A mídia e a ideologia geram frases desconexas e incorretas. Não dá pra dizer que um canal de mídia é o pior (todos são péssimos nessa questão), por isso, passarei a designá-los, todos, num só termo, como TV Quitanda, dado o grande número de abobrinhas que elas (as redes de TV) têm em suas prateleiras. Ao passarmos pela experiência de ouvir um telejornal, não é raro escutarmos:
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Palavra:
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No lugar de:
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A-DI-VO-GA-DO ou A-DE-VO-GADO
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AD-VO-GA-DO
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RÉcorde
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reCORde
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TAMO(S)
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ESTAMOS
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O-PI-TA
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OP-TA
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PI-GUI-MEN-TA-DO
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PIG-MEN-TA-DO
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BA-QUI-TÉ-RIA
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BAC-TÉ-RIA
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Ele encontrou ela
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Ele a encontrou
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Me convença
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Convença-me
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Essa lista não é exaustiva. Há muito mais. Ajude-nos, contando-nos, nos comentários, algumas que já escutou.
No meio do besteirol ideológico, há dois dias vendo um programa em que uma moça vivia repetindo que era “uma mulher negra”, mesmo sendo isso visível a qualquer um que estivesse assistindo ao programa, mesmo tendo, segundo o relato de sua vida, muitos méritos (sem precisar apelar para o “coitadismo”, de que pode ter sido prejudicada por ser mulher ou negra, mas repetindo várias vezes as frases feitas da ideologia, sobre ancestralidade). De repente ela solta a seguinte frase “Isso me fez conectar comigo mesma, com o meu eu“…
Daí, então, só me restou levantar do sofá e resmungar alguma indignação pelo absurdo verbal e pela ideologia que manipula as pessoas. Mas, de positivo, tomei uma decisão:
Conectar-me-ei (sim, com mesóclise – em protesto. Veja o artigo sobre Colocação Pronominal em meu outro blog) comigo mesmo, com o meu eu, e quando algum atendente de telemarketing chamar, perguntando “O Sr. Sergio se encontra?”, para poder “ESTAR CONVERSANDO” adequadamente, responder-lhe-ei (de novo a mesóclise): “só um minuto, preciso ver se estou conectado comigo mesmo, com o meu eu, para saber se eu me encontro”.
Antes de assistir esse programa esclarecedor (sqn) eu respondia ao atendente: “se eu não encontrasse, precisaria ir a um psicólogo (sim, psi–có–lo–go, não pis–si–có–lo–go), porque se não me encontrasse, estaria pinel…”.
Percebeu como minha resposta ficou melhor depois desse maravilhoso programa?
Deus nos acuda!
Oi ditadorzinho si eu tivé pobrema pra si encontrá cumigo mesmo mim dévi procurá um picicologo ô picica na lista?
Meu amigo, João Souza! Prazer imenso em ter tão dileta e impoluta figura tecendo comentários em meu humilde blog…
Talvez, nesse caso, devamos aplicar à pessoa que inventou o “ele se encontra?” aquele outro ditado “vá ver seu eu estou na esquina”….rsssss.
Há certas frases que parecem atrair as pessoas a usá-las; normalmente as mais infames e incorretas. Essa é uma delas. Talvez junto com “a nível de” e outras, tão infames quanto. Logo, vou escrever no outro blog, de Língua Portuguesa, um artigo sobre “por conta de”…
Abraço, meu amigo!
São as pérolas do jornalismo?
Não desanime!
Através dessas suas indignações, ganhamos essas aulas que nos instrui e motiva aprender.
Parabéns pelo blog. Parabéns pelo artigo!
Obrigado, minha amiga Solange Gualberto!
A indignação não é só porque eles, sendo profissionais que trabalham com a Língua, não a usam adequadamente, mas porque penso ser proposital, para que a massa desaprenda o que não aprendeu (se é que isso é possível). O que a Escola não ensinou, porque estava ocupada ensinando o que não precisaria ensinar, a mídia se encarrega de piorar. E o inculto ou o analfabeto funcional ao ouvi-los falar imagina que esse é o certo. “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”. O negócio é mesmo “não se encontrar”…rs